Ficção, Poesia

Condição [MICROCONTO]

Um primeiro e último olhar

Em tom de despedida.

-“Impossível desejá-la por aquela noite,

Sem antes desejá-la por toda vida.”

Anúncios
Padrão
Ficção

Ela


Nós não tínhamos hora marcada. Eventualmente, quando estava só, e apenas nestes momentos, ela aparecia. Onde quer que me encontrasse se aproximava, sorrateira e delicada. Com umas poucas e singelas palavras rompia meu silêncio e, em instantes, estávamos em longas e belas reflexões.  Foram tantas as vezes que nem lembro quando começou. Passávamos horas juntos apenas trocando palavras. Era interessada em tudo que eu tinha a dizer, permitia relembrar meu passado e gostava das minhas histórias. Parecia ouvir atentamente o que me vinha, seja o que fosse e sobre o que fosse: os meus momentos vividos, alegrias, tristezas, conquistas, perdas, amizades, amores, desamores…

A tudo prestava bastante atenção. Eu, em sua presença, discorria sobre o que me viesse à mente. Qualquer assunto. Mas não era displicente! Logo percebi seu apreço às letras e por isso, como quem garimpa, escolhia com cuidado as melhores palavras. Lembro das inúmeras vezes que repetia uma mesma frase até que pudesse perceber sua satisfação. Ela era educada, ouvia tudo com muita paciência. Apesar disso, nunca foi exigente. Sabia como poucos valorizar esforços. Na verdade, esforço e dedicação era tudo que esperava. Compreendia minhas limitações, minha infantilidade e até minha ignorância. Às vezes fico imaginando o quanto devia ser engraçado me ver chegar ao limite da minha capacidade para cantar e contar, das formas mais óbvias, as minhas questões. Eu, arrogante, ficava autoadmirando tudo o que havia dito, como se fossem os mais belos versos. Ela, com sua rara elegância, delicadamente apontava os muitos defeitos, cuidava e ensinava. Por tudo isso, ao contrário do que sua presença me fazia crer, ela transparecia ser extremamente experiente.

Depois de algum tempo em sua companhia soube que não poderia ser minha. Ela não era de ninguém. Na verdade era de todos, de milhares. Com alguns tivera uma relação tão intensa que deixou marcas na história. Me pareceu inacreditável perceber o quanto tanta beleza, delicadeza e elegância podiam conviver, em igual intensidade, com suposta vulgaridade. Mas ela foi uma grande professora. A melhor de todas, certamente. Foi amante, companheira, mãe, foi amiga, foi mulher. De nossos encontros resultaram minhas mais belas criações, as frases mais bonitas que já pude dizer, as idéias mais profundas que alcancei.

Já faz algum tempo que se foi. Eu sinto sua falta como a nada se pode comparar, não há um dia sequer que não lamente sua ausência. Mas, como nos tempos em que era freqüente, ao partir, me disse que voltaria. Eu permaneço esperando. De tudo o que tenho a contar da sua companhia, o que posso afirmar, com o produto da sua existência, é isto, e apenas isto: das de gênero feminino que passaram em minha vida, é dela que mais sinto falta. Se algum de seus outros inúmeros amantes, talvez até mais amado, puder me fazer este humilde favor, por clemência peço: diga que sinto sua falta. E, ainda, se for este tal benevolente, talvez, quem sabe?, possa  por misericórdia me responder: Por onde anda a POESIA?

Padrão