Opinião

Recalcado, eu?

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O bom senso crítico ensina a desconfiar: se alguém se dispõe a argumentar contra as insinuações de que é recalcado, é bem provável que estas insinuações sejam verdadeiras. Mesmo assim, me dispus a fazê-lo. Até por que, não recebi nenhuma acusação direta e as insinuações não passam disso: meras e insignificantes insinuações. O meu maior incômodo vem de mim mesmo, da necessidade particular de “zerar” o assunto (ainda que no início achasse que um post como esse seria desnecessário)

Há alguns meses textos sobre a “solteirice” ou questionadores quanto ao status e lugar privilegiado de determinados modelos de relação afetiva (em especial o casamento) em detrimento de outros, passaram a fazer parte deste blog com certa frequência. Isso em sincronia com alguns posts em redes sociais repercutindo o tema. Por mais que nestes textos hajam a explicita afirmação de que nada tenho contra este ou aquele modelo e por mais que tenha me esforçado em deixar claro que estou muito bem resolvido quanto às opções que fiz pra mim diante das circunstâncias que vivi, nada disso parece ser suficiente para evitar conclusões do tipo: ” ah! ele fala isso por que ainda não apareceu ninguém“, ou ainda, questionamentos como “por que ele tem que ficar afirmando isso o tempo todo?“. Cabem considerações.

Algo que se diz empiricamente a respeito de jornalismo e que, não por acaso, é desconstruído  já nas primeiras aulas do curso, é a velha máxima que diz que “não é notícia um cão morder um homem; mas sim um homem morder um cão”. Apesar de falsa como definição de notícia, a sentença é bem verdadeira quando diz respeito ao que atrai nossa atenção. O diferente, o fora do comum, o “anormal”, não só desperta mais curiosidade como, em geral, se fixa com muito mais facilidade em nossas mentes. O físico Leonardo Milodinow, autor do delicioso livro “O andar do bêbado” fala com muita propriedade sobre como, em geral, tendemos a fazer determinados juízos a partir de exceções e não de regras. Não é à toa que no inconsciente coletivo a fila do lado é sempre a mais rápida. Tendemos a registrar as situações de exceção e, pior, considerá-las regra. Ou seja, para ilustrar, as vezes que sua fila andou rápido, o questionamento a respeito da velocidade das filas não lhe veio e você sequer pensou na agilidade da fila ao lado. Diferente das vezes em que você se deu conta de que sua fila andava devagar.

Meu blog tem 122 posts, diversos poemas sobre amor, relacionamentos, afetividade, a descoberta de alguém especial. Escrevi, e ainda escrevo, textos e reflexões sobre vida e pessoas, exaltando a convivência, a dedicação ao outro, a estima em escolher viver uma vida ao lado de outra pessoa. Mas, mesmo assim, claro, marca muito mais os textos ou as considerações em que volto os olofotes para o outro lado. Para a possibilidade de não acontecer, de não ser assim, de não “dar certo”, não se casar (ou, se casar e ser um fracasso). Quando ponho em questão o “sonho” de uma vida a dois como algo digno desse status, quando proponho a possibilidade de se viver plenamente um relacionamentos em outros formatos, quando digo que um relacionamento temporário pode também ser louvado e admirado como os supostamente duradouros.

E para o “por que” de eu ter que fazer tais afirmações, digo simplesmente que faz parte do meu momento refletir sobre os caminhos possíveis à minha vida. Não ha nada subentendido. Não é recalque. Se alguém que leu meus textos quer ver ou entender o “por trás” do que eu digo,  deixo as palavras de CS Lewis: “não é possível sair por aí ‘vendo através’ de tudo para sempre. A idéia de ver através de alguma coisa é enxergar alguma coisa por trás. É bom que a janela seja transparente, pois a rua ou o jardim por trás dela não é. Como é possível ver através do jardim também?… Um mundo totalmente transparente é um mundo invisível. ‘Ver através’ de tudo é o mesmo que não ver.”

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Andar

Viajar é construir memórias.

Acredito profundamente que, enquanto algumas recordações, boas ou ruins, a vida invariavelmente imprime em nosso mural de lembranças, existem outras que temos poder e o privilégio de recriar.

Memórias são recriações.

Uma das célebres citações do genial Garcia Marquez ensina que nossa vida não é aquela que a gente viveu, mas a que a gente recorda, e como recorda, para poder contar aos outros. Viajar é uma das melhores aquarelas para construir esta obra de arte.

Mas o processo criativo das memórias demanda uma boa dose de tempo. Faz quase sete meses que retornei da minha primeira viagem como mochileiro. Foram treze dias entre Bolívia e Peru, de Santa Cruz de La Sierra a Cusco, em uma experiência incrível, de fato, inesquecível. Desde o dia que pus os pés fora de casa para, pela primeira vez sair do país, estava certo de que não era meu desejo fazer nada parecido com um “diário de viagem” ou algum registro escrito dos acontecimentos que seguiriam. Claro que, como todo bom viajante, trouxe souvenirs e fiz algumas muitas fotos, mas naquele momento já era convicto do entendimento de que o melhor que poderia trazer dos dias que estaria prestes a viver eram as experiências e memórias que eles me proporcionariam. Experiências e memórias quase inseparáveis hoje, mais de meio ano depois.

Foi então que decidi haver chegado o momento de contar essa história. Enquanto começo o planejamento da minha próxima viagem, transpor as memórias da minha última experiência para a escrita, me veio como um desafio e uma tarefa estimulante e motivadora. Considero, ao fazer isto, estar dando mais algumas pinceladas nessa obra que será recriada ainda muitas vezes enquanto for presente na minha memória. O que vou escrever não pretende ser definitivo. Afinal, seria diferente se fosse daqui há alguns meses ou anos, será certamente diferente do que de fato aconteceu e seria ainda muito diferente se tivesse feito os registros enquanto cumpria meu roteiro. Mas entendi que é um bom momento. Posso lembrar dos acontecimentos, relembrar detalhes e vislumbrar as experiências. Mais do que isso, posso criar e deixar a imaginação daqueles que se puserem a ler viajar também. Uma outra viagem, que não será a que eu fiz, nem a que eu escrevi, mas aquela individual, que, desejo, seja tão prazeirosa e viva quanto são as memórias que diariamente recrio daqueles dias de abril de 2012.

Ao trabalho!

*em alguns meses (o tempo que durar) pretendo postar aqui no blog o resultado dessa empreitada. Não sei quanto tempo vou levar, não sei o quanto de material vou produzir nem o formato em que vou disponibilizar. Mas isso tudo, a quem se interessar, vai se deifnir a medida que o trabalho for caminhando.
 
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Profecia para o amor.

Antes de amar, saiba

Você poderá ter e amar quantos amigos conseguir. Poderá e, aconselho, faça. Poderá ter e amar quantos filhos sua condição econômica e sua disposição em cuidar lhe permitir. Até seus pais, avós, tios, professores, mentores, mestres… a todos estes e quantos mais  afetos tiver, não há limite para amar. Ame profundamente e o mais intensamente possível quantos a vida lhe oferecer. Você poderá!

Mas… o amor dito eros, aquele que conquistou a prerrogativa de amor dos amores, o único que se encerra na própria palavra, este amor não. Deste só lhe será permitido UM. E deverá dedica-lo a apenas uma única pessoa, unica e exclusivamente UMA (pelo menos uma por vez).

Não bastasse esta exigência, este amor, para que possa ser vivenciado em sua plenitude, lhe exigirá também que seja retribuído. E retribuído de forma igualmente única. Da mesma maneira que apenas devrá dedicá-lo a uma só pessoa, você só poderá recebê-lo de outra única. Ele requer exclusividade.

Para vivê-lo, terá poucas possibilidades de escolha. Em sendo poucas, raramente coincidirão: ou não estarão de acordo com pessoa, ou com circunstâncias, ou com momento… As suas possibilidades, quase sempre em desacordo com as do outro.

Mas, ainda assim, será esse o amor que boa parte das pessoas vão desejar. Por este amor sonharão, desejarão, chorarão, nele serão mais intensos, afoitos, viscerais…  Por ele perderão noites, o senso, dedicarão seus talentos,  seu tempo. Por ele alguns escolherão até se desfazer de outros amores. E se por acaso não o tiverem, serão muitas vezes preteridos.

Por ser difícil, mas desejado, não obstante, para tê-lo, muitos vão abrir mão de critérios, princípios, vontades, vão abrir mão de si mesmos. Mas o que este amor nunca, jamais, dispensará será a exclusividade.

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Sobre ser solteiro

Nesses quase 30 anos, como qualquer pessoa, vivi algumas experiências e relacionamentos. Casamento, contudo, apesar de durante muito tempo ter sido um desejo, é uma daquelas que nunca vislumbrei. Cabe, como tantas outras fatídicas vezes, ressaltar: não tenho nada contra a tal “instituição divina”, fique claro! Antes muito pelo contrário. Apenas apresento um fato: nunca me vi em vias de casar, nunca fiquei noivo, pesquisei preço de mordia e planejei festa com essa finalidade… nada! Casamento e tudo que o envolve são, pra mim, experiências não vividas.

Junto a  isto o que já comentei em outros textos sobre minha perspectiva a respeito das modalidades de relacionamentos: não sou contrário a nenhuma delas tanto quanto não privilegio qualquer uma para um projeto de vida supostamente bem sucedida. Ou seja, o santificado casamento, entendo eu, tanto quanto estar solteiro, amigado, divorciado, viúvo etc… são condições, circunstâncias. São, como se diz, as limonadas que cada um consegue produzir com os limões que a vida anda distribuindo. Cada qual com suas dores e delícias.

Enfim, eu sou solteiro. Destaque para o “sou”. Não  é “estou”, é “sou”. Não pretendo com isso dizer que é definitivo, mas sim afirmar uma condição permanente. E também uma opção diante das circunstâncias, opiniões e convicções adquiridas. Explico o motivo de tal afirmação: muita gente encara a “solteirice” como um estágio que precede o status de casado. Este pensamento já é estabelecido quase (ou definitvamente) como senso comum: solteiros vão casar, e, se não acontecer, é por que algo deu errado. Mas não é assim, solteiros podem escolher ser sempre solteiros, até que as circunstâncias os unam…

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