Opinião

O fim, o começo

É incrível a relação íntima e de dependência que os opostos mantém. O fim, a despedida, a negação, a saída… estão intimamente ligados com o começo, o encontro, a afirmação, a chegada. Talvez a perspectiva cíclica do tempo que os Incas tinham seja mesmo mais apropriada ao mundo que vivemos. Os fins invariavelmente chegam, e com eles, sempre outros começos.

Em julho deste ano tomei uma decisão que mudou muita coisa na minha vida. Mudei de casa, de país, de idioma, de cultura, de trabalho, de profissão, de hábitos. Ciclos que se encerraram e outros que iniciaram. Muitas dessas mudanças são, na verdade conquistas, a possibilidade de realização de desejos que nutria há muito tempo. Dentre eles, me dedicar mais ao exercício da escrita, a escrita livre, literária, poética e sem compromisso formal, a não ser com o próprio desejo de escrever.

Por tudo isso,  faço aqui mais uma mudança. Chegou o momento do Simples Acaso. Foram quase 5 anos. Exatos 131 posts (contando com este) entre  poesia, ficção e opiniões diversas. Nesse período muita coisa mudou, muitas promessas foram feitas (boa parte não cumpridas), outras tantas terminaram, e, como não podia deixar de ser, todos os acontecimentos desencadearam muitos outros… vida que segue.

Mas encerro as publicações neste blogue para dar início a outro. Por sugestão da minha grande amiga Priscilla Figueiredo, meus novos textos, regados a muito café, alguma disciplina, as novas experiências e outros “ingredientes”, serão publicados no CRÔNICAS DE OUTRO LUGAR. A  sugestão da Priscilla encontrou terreno fértil nas motivações e vagas ideias que impulsionaram as mudanças que citei acima, e que minha atual rotina me permite. Foi a faísca que faltava.

Os textos que aqui estão, aqui repousarão, enquanto este espaço me estiver disponível.  Espero os amigos antigos e os novos nesta minha nova casa virtual.

Obrigado Priscilla,
Em paz.

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Opinião

Transformar

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-Eu mudei sim, e muito – Respondi.

A despeito de qualquer coisa, mudar sempre.

Uma composição de Lulu Santos (sou pop), interpretada por Pedro Mariano, tem em seus versos a síntese do que posso dizer ser uma das facetas da maneira como encaro a vida: “Não há nada a perder/ Não há nada a ganhar/ A não ser o prazer de ser o mesmo, mas mudar”.

Sigo para mais uma mudança, talvez a mais radical. Para muitos, uma das mais ousadas que uma pessoa pode arriscar. Perguntam-me o motivo. Ofereço alguns. Há aqueles que, com a mente romanticamente formatada, acreditam ser um suposto amor sobrenatural a causa de tudo. Como escreveria Ancelmo Gois, “é, pode ser…”

Insuficientes para a maioria,  os motivos que em geral ofereço, são muito mais uma tentativa de satisfação educada do que uma explicação racional e calculada. Ter motivos, sinceramente, não é o que me ocupa. Em algum lugar eles certamente existem, saber disso me basta.

Alguém por esses dias disse que admirava a minha busca despreocupada pela felicidade. “Ser feliz, eu?”, pensei. Não é bem a palavra que costumo usar. Acho que trocaria “felicidade” por “vida”. Por que  aí sim, desejo chegar ao fim dela com cabeça suficiente para avaliar que eu vivi o quanto pude. A felicidade é uma conta mais complicada, acho que o simples viver me faz feliz. Sem muita ambição. Estou mudando e assim pretendo seguir, não me pergunte como.

 

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Opinião, Poesia

Delírio coletivo

Minha “latinidade” tem estado cada vez mais aflorada.  A identificação com os povos e, principalmente, com as pessoas que compartilham este continente -que, pela ocupação litorânea do Brasil (creio eu), sempre pareceram tão distantes- têm provocado um sentimento de identidade latinoamericana cada vez mais forte. Não por acaso, abro espaço, aqui, para o mestre Eduardo Galeano. Minha preferência provinciana por escritores latinos ou de língua portuguesa não é recente. Mas Galeano tem aos poucos se revelado e encontrado eco em mim.

El derecho al delírio

¿Qué tal si deliramos, por un ratito?

¿Qué tal si clavamos los ojos más allá de la infamia, para adivinar otro mundo posible?

El aire estará limpio de todo veneno que no venga de los miedos humanos y de las humanas pasiones;

En las calles, los automóviles serán aplastados por los perros;

La gente no será manejada por el automóvil, ni será programada por la computadora, ni será comprada por el supermercado, ni será mirada por el televisor;

El televisor dejará de ser el miembro más importante de la familia, y será tratado como la plancha o el lavarropas;

Se incorporará a los códigos penales el delito de estupidez, que cometen quienes viven por tener o por ganar, en vez de vivir por vivir nomás, como canta el pájaro sin saber que canta y como juega el niño sin saber que juega;

En ningún país irán presos los muchachos que se nieguen a cumplir el servicio militar, sino los que quieran cumplirlo;

Nadie vivirá para trabajar, pero todos trabajaremos para vivir;

Los economistas no llamarán nivel de vida al nivel de consumo, ni llamarán calidad de vida a la cantidad de cosas;

Los cocineros no creerán que a las langostas les encanta que las hiervan vivas;

Los historiadores no creerán que a los países les encanta ser invadidos;

Los políticos no creerán que a los pobres les encanta comer promesas;

La solemnidad se dejará de creer que es una virtud, y nadie tomará en serio a nadie que no sea capaz de tomarse el pelo;

La muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes, y ni por defunción ni por fortuna se convertirá el canalla en virtuoso caballero;

La comida no será una mercancía, ni la comunicación un negocio, porque la comida y la comunicación son derechos humanos;

Nadie morirá de hambre, porque nadie morirá de indigestión;

Los niños de la calle no serán tratados como si fueran basura, porque no habrá niños de la calle;

Los niños ricos no serán tratados como si fueran dinero, porque no habrá niños ricos;

La educación no será el privilegio de quienes puedan pagarla;

La policía no será la maldición de quienes no puedan comprarla;

La justicia y la libertad, hermanas siamesas condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse, bien pegaditas, espalda contra espalda;

Argentina, las locas de Plaza de Mayo serán un ejemplo de salud mental, porque ellas se negaron a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria;

La Santa Madre Iglesia corregirá las erratas de las tablas de Moisés, y el sexto mandamento ordenará festejar el cuerpo;

La Iglesia también dictará otro mandamiento, que se le había olvidado a Dios: “Amarás a la naturaleza, de la que formas parte”;

Serán reforestados los desiertos del mundo y los desiertos del alma;

Los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados, porque ellos son los que se desesperaron de tanto esperar y los que se perdieron de tanto buscar;

Seremos compatriotas y contemporáneos de todos los que tengan voluntad de belleza y voluntad de justicia, hayan nacido cuando hayan nacido y hayan vivido donde hayan vivido, sin que importen ni un poquito las fronteras del mapa o del tiempo;

Seremos inperfectos, porque la perfección seguirá siendo el aburrido privilegio de los dioses; pero en este mundo, en este mundo chambón y jodido, seremos capaces de vivir cada día como si fuera el prime y cada noche como si fuera la última.

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Opinião

Recalcado, eu?

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O bom senso crítico ensina a desconfiar: se alguém se dispõe a argumentar contra as insinuações de que é recalcado, é bem provável que estas insinuações sejam verdadeiras. Mesmo assim, me dispus a fazê-lo. Até por que, não recebi nenhuma acusação direta e as insinuações não passam disso: meras e insignificantes insinuações. O meu maior incômodo vem de mim mesmo, da necessidade particular de “zerar” o assunto (ainda que no início achasse que um post como esse seria desnecessário)

Há alguns meses textos sobre a “solteirice” ou questionadores quanto ao status e lugar privilegiado de determinados modelos de relação afetiva (em especial o casamento) em detrimento de outros, passaram a fazer parte deste blog com certa frequência. Isso em sincronia com alguns posts em redes sociais repercutindo o tema. Por mais que nestes textos hajam a explicita afirmação de que nada tenho contra este ou aquele modelo e por mais que tenha me esforçado em deixar claro que estou muito bem resolvido quanto às opções que fiz pra mim diante das circunstâncias que vivi, nada disso parece ser suficiente para evitar conclusões do tipo: ” ah! ele fala isso por que ainda não apareceu ninguém“, ou ainda, questionamentos como “por que ele tem que ficar afirmando isso o tempo todo?“. Cabem considerações.

Algo que se diz empiricamente a respeito de jornalismo e que, não por acaso, é desconstruído  já nas primeiras aulas do curso, é a velha máxima que diz que “não é notícia um cão morder um homem; mas sim um homem morder um cão”. Apesar de falsa como definição de notícia, a sentença é bem verdadeira quando diz respeito ao que atrai nossa atenção. O diferente, o fora do comum, o “anormal”, não só desperta mais curiosidade como, em geral, se fixa com muito mais facilidade em nossas mentes. O físico Leonardo Milodinow, autor do delicioso livro “O andar do bêbado” fala com muita propriedade sobre como, em geral, tendemos a fazer determinados juízos a partir de exceções e não de regras. Não é à toa que no inconsciente coletivo a fila do lado é sempre a mais rápida. Tendemos a registrar as situações de exceção e, pior, considerá-las regra. Ou seja, para ilustrar, as vezes que sua fila andou rápido, o questionamento a respeito da velocidade das filas não lhe veio e você sequer pensou na agilidade da fila ao lado. Diferente das vezes em que você se deu conta de que sua fila andava devagar.

Meu blog tem 122 posts, diversos poemas sobre amor, relacionamentos, afetividade, a descoberta de alguém especial. Escrevi, e ainda escrevo, textos e reflexões sobre vida e pessoas, exaltando a convivência, a dedicação ao outro, a estima em escolher viver uma vida ao lado de outra pessoa. Mas, mesmo assim, claro, marca muito mais os textos ou as considerações em que volto os olofotes para o outro lado. Para a possibilidade de não acontecer, de não ser assim, de não “dar certo”, não se casar (ou, se casar e ser um fracasso). Quando ponho em questão o “sonho” de uma vida a dois como algo digno desse status, quando proponho a possibilidade de se viver plenamente um relacionamentos em outros formatos, quando digo que um relacionamento temporário pode também ser louvado e admirado como os supostamente duradouros.

E para o “por que” de eu ter que fazer tais afirmações, digo simplesmente que faz parte do meu momento refletir sobre os caminhos possíveis à minha vida. Não ha nada subentendido. Não é recalque. Se alguém que leu meus textos quer ver ou entender o “por trás” do que eu digo,  deixo as palavras de CS Lewis: “não é possível sair por aí ‘vendo através’ de tudo para sempre. A idéia de ver através de alguma coisa é enxergar alguma coisa por trás. É bom que a janela seja transparente, pois a rua ou o jardim por trás dela não é. Como é possível ver através do jardim também?… Um mundo totalmente transparente é um mundo invisível. ‘Ver através’ de tudo é o mesmo que não ver.”

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Andar

Viajar é construir memórias.

Acredito profundamente que, enquanto algumas recordações, boas ou ruins, a vida invariavelmente imprime em nosso mural de lembranças, existem outras que temos poder e o privilégio de recriar.

Memórias são recriações.

Uma das célebres citações do genial Garcia Marquez ensina que nossa vida não é aquela que a gente viveu, mas a que a gente recorda, e como recorda, para poder contar aos outros. Viajar é uma das melhores aquarelas para construir esta obra de arte.

Mas o processo criativo das memórias demanda uma boa dose de tempo. Faz quase sete meses que retornei da minha primeira viagem como mochileiro. Foram treze dias entre Bolívia e Peru, de Santa Cruz de La Sierra a Cusco, em uma experiência incrível, de fato, inesquecível. Desde o dia que pus os pés fora de casa para, pela primeira vez sair do país, estava certo de que não era meu desejo fazer nada parecido com um “diário de viagem” ou algum registro escrito dos acontecimentos que seguiriam. Claro que, como todo bom viajante, trouxe souvenirs e fiz algumas muitas fotos, mas naquele momento já era convicto do entendimento de que o melhor que poderia trazer dos dias que estaria prestes a viver eram as experiências e memórias que eles me proporcionariam. Experiências e memórias quase inseparáveis hoje, mais de meio ano depois.

Foi então que decidi haver chegado o momento de contar essa história. Enquanto começo o planejamento da minha próxima viagem, transpor as memórias da minha última experiência para a escrita, me veio como um desafio e uma tarefa estimulante e motivadora. Considero, ao fazer isto, estar dando mais algumas pinceladas nessa obra que será recriada ainda muitas vezes enquanto for presente na minha memória. O que vou escrever não pretende ser definitivo. Afinal, seria diferente se fosse daqui há alguns meses ou anos, será certamente diferente do que de fato aconteceu e seria ainda muito diferente se tivesse feito os registros enquanto cumpria meu roteiro. Mas entendi que é um bom momento. Posso lembrar dos acontecimentos, relembrar detalhes e vislumbrar as experiências. Mais do que isso, posso criar e deixar a imaginação daqueles que se puserem a ler viajar também. Uma outra viagem, que não será a que eu fiz, nem a que eu escrevi, mas aquela individual, que, desejo, seja tão prazeirosa e viva quanto são as memórias que diariamente recrio daqueles dias de abril de 2012.

Ao trabalho!

*em alguns meses (o tempo que durar) pretendo postar aqui no blog o resultado dessa empreitada. Não sei quanto tempo vou levar, não sei o quanto de material vou produzir nem o formato em que vou disponibilizar. Mas isso tudo, a quem se interessar, vai se deifnir a medida que o trabalho for caminhando.
 
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Profecia para o amor.

Antes de amar, saiba

Você poderá ter e amar quantos amigos conseguir. Poderá e, aconselho, faça. Poderá ter e amar quantos filhos sua condição econômica e sua disposição em cuidar lhe permitir. Até seus pais, avós, tios, professores, mentores, mestres… a todos estes e quantos mais  afetos tiver, não há limite para amar. Ame profundamente e o mais intensamente possível quantos a vida lhe oferecer. Você poderá!

Mas… o amor dito eros, aquele que conquistou a prerrogativa de amor dos amores, o único que se encerra na própria palavra, este amor não. Deste só lhe será permitido UM. E deverá dedica-lo a apenas uma única pessoa, unica e exclusivamente UMA (pelo menos uma por vez).

Não bastasse esta exigência, este amor, para que possa ser vivenciado em sua plenitude, lhe exigirá também que seja retribuído. E retribuído de forma igualmente única. Da mesma maneira que apenas devrá dedicá-lo a uma só pessoa, você só poderá recebê-lo de outra única. Ele requer exclusividade.

Para vivê-lo, terá poucas possibilidades de escolha. Em sendo poucas, raramente coincidirão: ou não estarão de acordo com pessoa, ou com circunstâncias, ou com momento… As suas possibilidades, quase sempre em desacordo com as do outro.

Mas, ainda assim, será esse o amor que boa parte das pessoas vão desejar. Por este amor sonharão, desejarão, chorarão, nele serão mais intensos, afoitos, viscerais…  Por ele perderão noites, o senso, dedicarão seus talentos,  seu tempo. Por ele alguns escolherão até se desfazer de outros amores. E se por acaso não o tiverem, serão muitas vezes preteridos.

Por ser difícil, mas desejado, não obstante, para tê-lo, muitos vão abrir mão de critérios, princípios, vontades, vão abrir mão de si mesmos. Mas o que este amor nunca, jamais, dispensará será a exclusividade.

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Sobre ser solteiro

Nesses quase 30 anos, como qualquer pessoa, vivi algumas experiências e relacionamentos. Casamento, contudo, apesar de durante muito tempo ter sido um desejo, é uma daquelas que nunca vislumbrei. Cabe, como tantas outras fatídicas vezes, ressaltar: não tenho nada contra a tal “instituição divina”, fique claro! Antes muito pelo contrário. Apenas apresento um fato: nunca me vi em vias de casar, nunca fiquei noivo, pesquisei preço de mordia e planejei festa com essa finalidade… nada! Casamento e tudo que o envolve são, pra mim, experiências não vividas.

Junto a  isto o que já comentei em outros textos sobre minha perspectiva a respeito das modalidades de relacionamentos: não sou contrário a nenhuma delas tanto quanto não privilegio qualquer uma para um projeto de vida supostamente bem sucedida. Ou seja, o santificado casamento, entendo eu, tanto quanto estar solteiro, amigado, divorciado, viúvo etc… são condições, circunstâncias. São, como se diz, as limonadas que cada um consegue produzir com os limões que a vida anda distribuindo. Cada qual com suas dores e delícias.

Enfim, eu sou solteiro. Destaque para o “sou”. Não  é “estou”, é “sou”. Não pretendo com isso dizer que é definitivo, mas sim afirmar uma condição permanente. E também uma opção diante das circunstâncias, opiniões e convicções adquiridas. Explico o motivo de tal afirmação: muita gente encara a “solteirice” como um estágio que precede o status de casado. Este pensamento já é estabelecido quase (ou definitvamente) como senso comum: solteiros vão casar, e, se não acontecer, é por que algo deu errado. Mas não é assim, solteiros podem escolher ser sempre solteiros, até que as circunstâncias os unam…

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